Triângulo do amor.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


São Paulo – Brasil.

Sophie olhou para o lado e como que se nada fosse e perguntou: - “Qual é minha maior qualidade?”.
Jonas pego de surpresa pela pergunta, mas além de surpreso incomodado pela quebra do silêncio se remexe no sofá franzindo o cenho, enquanto seus olhos castanhos gelados olhavam visivelmente irritados pra ela, ao que responde: -“Sua imoralidade, de fato, a despeito de toda sua beleza, o que a torna mais que um simples detalhe e sorte de nascimento é a sua propensão para o mundano e o imoral, você esta sempre nua das vestes sacramentais e do socialmente aceitável. Com certeza essa é a sua melhor qualidade.
Sophie ri e olha curiosa pra ele numa tentativa de saber se o que falava era só uma provocação ou era serio. Ficou sem saber, como sempre era muito difícil extrair de Jonas algo que sua mente escondia, ler seus pensamentos era uma tarefa tão desgastante que raramente valia o esforço.
“Talvez seja por isso que o amo. Será?”. Deixou esse pensamento vagar um pouco por sua mente e o abandonou em seguida.
Sorrateiramente como uma criança que fosse fazer algo errado levantou-se da cama onde estava deitada e a passos preguiçosos sentou seu corpo nu em um sofá de frente para o que Jonas estava sentado:
“Seria capaz de matar-me?” - perguntou com o sorriso mais belo do mundo.
“Quer saber se a amo?” – soltou Jonas como se despertasse de uma hipnose.
“Não meu caro, que me ama eu sei, queria saber o que exatamente perguntei, só isso”.

Dessa vez seu olhar não era de irritação, apesar de manter o mesmo frio no olhar, era de descoberta, como se a resposta que fosse dar não fosse conhecida nem mesmo por ele antes da pergunta ter sido feita, mas após desta ter sido proferida a certeza era incontestável.

“Se preciso fosse, sim eu a mataria, com a mesma certeza que tem de meu amor. Sim eu o faria”.
Os olhos verdes-garrafa da mulher nua à frente dele brilharam com tanta intensidade após ouvir aquilo que era difícil dizer se o que mais irradiava era seu sorriso ou seu olhar. Ele também sorriu, pois sabia o que ela estava pensando.
“Se assim é então devo dizer que carece da minha maior qualidade e que pelo exato oposto tem um dos maiores defeitos do mundo. Você só não deixou de ser agraciado com o dom da imoralidade, mas também foi desgraçado com a sina dos mártires, você meu amor, es um santo”.
Riram ambos da forma teatral com que Sophie com seu sotaque carregado soltou aquela frase.

Para Sophei era exatamente o que Jonas representava, um santo, a despeito de tudo que fizera no alto dos seus vinte e oito anos de vida, e não fora pouca coisa.
Quando o conheceu ainda na França, sabia que aquele homem apesar da juventude e dos traços calmos era um homem de segredos e convicção, tinha muitos motivos para se sentir atraída por ele, já naquela época tinha um corpo bem talhado e a despeito de ser um homem alto, andava com elegância, sua pele escura fazia com que Sophei o comparasse em sua cabeça aos velhos guerreiros de tribos africanas, viris e temerários, mas era em seus olhos que ela costumava se perder, como Sophei mesma costuma dizer, eram um mar de gelos castanhos.
A mente de Sophie ainda estava presa ao passado quando um leve som interrompe seu devaneio, olha pra frente a tempo de ver Jonas se levantar e ir pensativo até a janela.
Alguns segundos se passam com ela a lhe mirar seu olhar em suas costas.
“Algum problema?” – ela indaga.
Ele se volta, pega um violão que está ali perto, mas não o toca, procura o sofá novamente e deixa o instrumento descansando em seu colo, respira fundo e diz:

“Hoje eu fui ferido no peito”.
“Como assim, Jonas?”.
“Eu a conheci assim de repente, de sorriso lindo e olhar meigo. Realmente podia me perder naquele sorriso, realmente eu queria me perder naquele sorriso e por todos os meus pecados foi exatamente o que consegui”.

Sophie o escutava cada vez mais curiosa.

“Ela poderia ser uma boa arquiteta tamanha a facilidade em projetar sonhos nas pessoas. Claro! Eu homem feito, estou aquém disso tudo, apesar de toda a feridas, apesar da lamentação. Sou homem feito, não sou?”.
“Jonas, você está me dizendo ou tentando me dizer que se apaixonou por outra pessoa?”.

Ele a olha. Solta um suspiro e uma nota no violão que lembra uma música do passado de Sophei. Sorri um sorriso tristonho e diz cantarolando:

“Eu te amo Sophei... mas ela me feriu quando disse que tem outra pessoa. Consegue entender isso?”.

Sophei se levanta procura uma roupa qualquer e se veste. Antes de sair ainda consegue sussurrar:

“Me liga”

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Quero dedicar esse conto a Giza, sorriso doce.

13 comentários:

HoneyBee disse...

Obrigada. Muito emocionante =)

Ellen Regina - facetasdemim disse...

É um lindo e triste conto.

Me faz pensar no estrago q palavras não-ditas podem fazer. Às vezes tendemos a pensar q os outros têm a mesma capacidade de nossa mãe de ler o nosso pensamento...

Gilgomex™ disse...

"Sophei se levanta procura uma roupa qualquer e se veste. Antes de sair ainda consegue sussurrar:

“Beijo, me liga”

rs.

Sim,é um conto triste... E sim, é um daqueles contos que eu vou ter que voltar aqui mais umas 14 vezes para realmente conseguir entender... rs.

Laila disse...

Oh, que milagre o senhor por aqui!
rsrsrsrs
Que bom que voltou, e foi em grande estilo!!
Lindo conto, esse mais do meu gosto do que o outro.

Marcelo disse...

Márcio,

Não sou da área de Literatura, sou de L. portuguesa, mas tenho formação acadêmica para lhe dizer que a qualidade do seu texto é extraordinária. A sua capacidade de síntese na retratação do sentimento em contos curtos é realmente algo que me surpreende. Quando um aluno vem com um texto para eu dar uma opinião sempre converso com ele e falo no final do papo: olha, tem um cara chamado Márcio Sarge que tem um blogue... vê lá no saco de filó no meu blog roll...rs
O seu jogo de palavras é uma pintura...
Parabéns, cara... parabéns mesmo.
Abraços

Camilíssima disse...

E lá vem a Camila, rasgar seda pro Sarge... Como estudante de Letras, sou obrigada a concordar com o comentário acima (do Marcelo). Realmente, você possui uma característica literária que exige muita técnica e que em você soa como algo espontâneo, fluente. Essa capacidade de focar sentimentos, sem que a síntese prejudique o resultado final do texto. Em poucas palavras você é capaz de fazer rir, chorar, refletir, vivenciar situações... tudo intensamente, não importa a extensão do texto. Ou seja, você teletransporta o leitor para a sua história, o torna testemunha ocular dos fatos. Faço minhas as sua palavras lá na Caixa de Pandora: "Bravo!"

carla m. disse...

Marcinho, mais uma vez explorando a confusão frágil da humanidade...
e eu não canso de ler.

espero que tua internet volte logo.

beijo

Arlequim disse...

Ótimo, ótimo como sempre.
Liiindooo
beeijaço. ;)

HoneyBee disse...

Eu já mencionei que gostei do conto? Gostei mesmo. Queria poder responder à altura...

Antônia Burke disse...

Márcio,

O conto tá excelente, as palavras foram tão bem escolhidas, e o texto tá fluindo bem demais!!
Do que eu já li por aqui, provavelmente esse foi o que eu mais gostei, inspiradíssimo!
Aproveito pra dizer que depois da loucura pós-bebê estou de volta e prometo passar mais por aqui!
Beijos

Tyler Bazz disse...

Mais que triste, acho que a coisa é na verdade complicada....

Varotto disse...

Excelente!

Stephanie disse...

gosto muito do fato da forma como você escreve sobre as relações amorosas e seu desencontros, porque acho que suas palavras estão cheias de vida - das pequenas complexidades dos seres humanos com suas tantas contradições

apenas, acho - se você me permite esse aparte construtivo - que se você imprimisse nos teus textos afetivos o mesmo ritmo e força que usa nos teus textos mais políticos e críticos, ah, esses teus textos de amores e desecontros sairiam cortando o coração. porque doer, eles já doem.

beijo

 
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