
Eu detesto ir ao cabeleireiro, sempre detestei desde criança. Alias minha briga com os cabeleireiros começou mesmo na infância, porque sempre que me deparava com um, lá na rua onde morava, eu tentava ler a porra do cartaz, gaguejava, saia algo como caberero, caberereiro, cabileiro, sei lá, ai as outras crianças rachavam o bico de mim, como se elas conseguissem ler aquilo, eu ainda tinha coragem e tentava, mas elas não, as outras covardemente se omitiam do fardo.
No final era bem melhor pra elas, não passavam a mesma vergonha que eu.
Mas os anos vindouros reservaram coisa pior pra mim referente aos cabeleireiros, algo que detesto mais que esses salões, ou seja esperar.
Sempre que chegava em algum, lá havia dúzias de mulheres tentando todo tipo de engenharia pra deixarem suas madeixas mais charmosas e meu teste de paciência mas duro de aguentar.
Claro que eu usava mão dos subterfúgios de quinta desses lugares que é colocar revistas pra ver se a dor da espera diminui, mas acontece que em meu caso isso era pior.
Nunca havia uma revista interessante no local, sem Seuperinteressante, sem quadrinhos, sem revistas de carro, sem revistas de notícias, PlayBoy nem pensar, em sua maioria eram revistas de fofoca e de moda, numa tentativa descarada de nos fazerem crer que ali alguém entende de moda. No máximo de fofoca.
Por anos penei no interior desses cabeleireiros, aguentando o cheiro de química, as fofocas e as viadagens. Porem um dia me rebelei, tive duas idéias, uma era nunca mais cortar o cabelo e me transformar no maior black power já vivo, mas como isso ia contra os planos da minha mãe e ir contra os planos da minha mãe naquela época provocavam muita dor física, preferi ficar com o segundo que era simplesmente mudar de salão.
Sim eu não iria mais cortar o cabelo em cabeleireiros cheio de frescura iria nas espeluncas com pouca luz e chão sujo, que com certeza não havia muitas mulheres e consequentemente não havia esperas gigantes.
Assim o fiz e por anos fui feliz, numa dessas havia até mesmo revistas de carro, mas nem dava tempo de ler porque a fila andava rápido e em outra até tinha uma tv que passava os jogos de futebol, discutia-se, ria-se, xingava-se, éramos uma quase familia, só faltava a bebida.
Mas como paz significa recarregar as armas, como diz o Dimmu Borgir, e a modernidade provou que era mais rápido no gatilho que eu, a família se desfez.
O tempo passou e um novo tipo de ser humano agregou-se a nós machos a moda antiga, e deturpou a forma como faziámos as coisas, eis que surgiu os metrosexuais.
Eles invadiram nosso território de machos com seus apliques e luzes e unhas por fazer e nos legaram o pior dos males, aquele que tinha ficado enterrado no passado: A espera!
Antes eram as mulheres agora somos nós, ou melhor eles, que ficam entulhando as cadeiras de espera, e dando palpite no trabalho de engenharia dos cabeleireiros e ainda por cima reclamam da unha mal feita.
Sinto saudades do tempo em que não sábia ler direito, que só havia mulheres nesses salões e que ninguém reclamava da minha unha.
Talvez eu volte com o plano do Black Power.